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A “espionagem” do TikTok. Entre o capitalismo de vigilância e a apropriação da Internet

CARLOS CABRAL

03 AGO 2020 – 12:20 BRT

Em 22 de junho, a Apple lançou uma versão de testes do iOS 14, seu sistema operacional para IPhones e IPads que terá, entre outras coisas, uma funcionalidade de privacidade que alerta sobre acessos ao clipboard, a área de memória em que tudo que copiamos e colamos é temporariamente armazenado.

Usuários copiam e colam coisas o tempo todo. Muitas delas são sensíveis, como senhas ou dados financeiros. Foi testando o novo mecanismo de privacidade do iOS 14 que desenvolvedores descobriram que o aplicativo TikTok monitorava o clipboard de IPhones e IPads, capturando tudo que usuários copiavam.

Não só o TikTok roubava dados do clipboard. Na verdade, outros 53 aplicativos coletam estes dados, incluindo os apps da Al Jazeera, CBC News e Fox News, os jogos FlipTheGun e Fruit Ninja e outros como Hotels.com e The Weather Network.

No mesmo período, o TikTok e mais 58 aplicativos chineses foram banidos na Índia como consequência da disputa entre o país e a China pela fronteira nos Himalaias. A Amazon, no dia 7 de julho, emitiu um comunicado aos funcionários pedindo que o TikTok fosse removido dos seus dispositivos por preocupações com a segurança, depois voltou atrás e, no último dia 31, Trump disse que pretende bloquear o app.

O TikTok se tornou a mais recente expressão da alta tecnologia chinesa; porém, desenvolvida em um país que controla o acesso à Internet, vigiando e censurando o conteúdo postado na rede, o que gera desconfiança. Mas é de conhecimento público que a Internet chinesa é controlada pelo governo desde que foi instalada e a tecnologia produzida por suas fábricas está ao nosso redor há décadas. A novidade que se manifesta nas reações contra o TikTok tem raízes mais profundas.

Embora louvável, o ideal do início da World Wide Web ― de que o acesso universal à informação poderia levar a humanidade a um tipo de emancipação que resultaria em justiça social ― é hoje tido como ingênuo, sobretudo quando analisamos as últimas décadas de exploração da Internet. A professora emérita de Harvard, Shoshana Zuboff, demonstra que as atuais Big Techs formaram nos últimos 20 anos uma nova ordem econômica, denominada como “capitalismo de vigilância”. Esta ordem se baseia em um tipo distinto de excedente, que a autora chama de “mais-valia comportamental”, que gera valor a partir dos dados de nosso comportamento que concedemos às empresas e são posteriormente usados para outros fins, além do serviço que elas prestam a nós.

Em outras palavras, empresas como Google e Facebook não vendem o acesso direto aos nossos dados, pois estes são matéria prima de algo mais valioso: a mensuração da probabilidade de tomarmos decisões em detrimento de outras, tais como comprarmos algo ou concordarmos com alguma ideia. Seja no Instagram ou no Tik Tok, coletar dados do usuário tem menos a ver com a arapongagem de algum governo e mais com as regras do jogo dessa nova forma do capitalismo. Além disso, há o ajuste fino da tecnologia para levar indivíduos a determinadas ideias e produtos. Pois, “sob o capitalismo de vigilância, os meios de produção estão a serviço dos meios de modificação do comportamento”.

O capitalismo de vigilância se tornou evidente no caso Cambridge Analytica, em que a empresa influenciou eleitores nas eleições de Trump e do Brexit. Talvez nunca saibamos quão diferentes seriam os pleitos sem essa tecnologia, mas é inegável que a Internet é usada para construir consensos em um processo que também pode, retroativamente, transformar a Internet.

O “mundo virtual” cria pontes entre gente que antes não imaginava que tantos tinham os mesmos problemas e causas que as suas ou a mesma visão do que seria o certo ou justo. Assim, a rede se tornou ferramenta para que muitos juntassem forças: mulheres, negros, LGBTQIA+ e também supremacistas brancos, terroristas, fascistas e outros. O senso de pertencimento é omnidirecional.

Governos tiraram vantagem da rede para manipular narrativas, estabelecer vigilância e conduzir ciberataques contra aliados e inimigos.

A história da Internet se tornou uma história de empoderamento e apropriação. As condições para o empoderamento são mais evidentes, por exemplo, materializadas nas hashtags, pessoas e inovações que crescem em importância na rede. Já a apropriação é algo mais complexo, tem relação com grupos de poder já estabelecidos, como governos que abusam da rede e as empresas do capitalismo de vigilância que, a todo momento, inovam no sentido de nos manter o maior tempo possível em sua plataforma, oferecendo assim os dados que geram a mais-valia comportamental e fazem a roda girar. Ironicamente, nerds como Larry Page, Sergey Brin, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg foram os primeiros a se empoderar com a Internet e hoje competem com políticos, espiões e militares pela apropriação dela.

Entretanto, a China tem peculiaridades relevantes. O país desde cedo montou uma infraestrutura de rede ao seu modo, criando o “Grande Firewall da China”: uma estrutura de controle de acesso, vigilância e censura. Assim, se apropriou do melhor da Internet, porém com adaptações às diretrizes do plano de crescimento do país. O resultado foi a proibição do acesso ao exterior e a criação de um pujante mercado de tecnologia que se curva ao Grande Firewall.

Exceção feita à espionagem chinesa, o mundo lidou com a Internet do país de maneira indiferente nas últimas décadas, não deixando de comprar bugigangas baratas, Iphones fabricados em Zhengzhou ou de usar o TikTok por causa do Grande Firewall da China.

O vento passou a mudar com o acirramento da guerra comercial com os Estados Unidos, resultado do ostensivo crescimento econômico chinês ao longo dos anos, sobretudo pós-crise de 2008, e a potencial relevância geopolítica para quem primeiro dominar a rede 5G, inaugurando uma nova fase na história da Internet.

Ao considerarmos a gestão da Internet no contexto atual, de ascensão de regimes que flertam com o autoritarismo, resgate da soberania territorial em detrimento do multilateralismo e da globalização e de dificuldade em se proteger da desinformação e de ciberataques, há mais chances de encontrar políticos arrependidos por não ter implementado uma rede como a chinesa quando podiam do que governantes devotados à causa de uma Internet aberta e livre. Mas copiar a Internet chinesa agora pode ser paradoxal em muitos países, pois os negócios dependem das grandes empresas do “capitalismo de vigilância”.

Exceção feita à China, que implementou o Grande Firewall nos anos 90 e desenvolveu seu mercado interno de Internet, quem se vê em condições de fechar as portas para Google, Facebook, Twitter, Apple e outras Big Techs? Isso seria como fechar o litoral na era das grandes navegações.

Por mais nocivo que o capitalismo de vigilância possa ser para a privacidade, nele há uma pressão relevante pela manutenção da Internet como está, criando condições para que o debate sobre a vigilância aconteça. Impor fronteiras ao ciberespaço atrasa o avanço civilizatório. Portanto, enquanto conseguirmos ver gente dançando no TikTok, haverá esperança.

Carlos Cabral é pesquisador de cibersegurança na Tempest Security Intelligence e sociólogo. Organizou o livro ‘Trilhas em Segurança da Informação’ (2013), da Brasport.

FONTE: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-08-03/a-espionagem-do-tiktok-entre-o-capitalismo-de-vigilancia-e-a-apropriacao-da-internet.html